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Varginha - São Paulo - Amsterdã
- Paris
Bruno Maia: Pois é, tava
todo mundo na seca pra chegar logo essa data. Enfim, seria nossa
primeira marcha pelo Velho Mundo; que “doidera”!!!
Nos acompanhava nessa turnê o Tassio Maia e chegamos ao
aeroporto de Guarulhos na noite do dia 7 de Julho com as malas
abarrotadas de camisetas da banda. Estávamos todos apreensivos
porque justamente no dia em que embarcamos rolou aquele atentado
em Londres, e toda a Europa estava em “alerta vermelho”.
Todo mundo ansioso, na expectativa pra encarar 14 horas de vôo,
e conexão em Amsterdã. No avião foi aquela
“viagem”, “forando” o medo...
Chegamos a Paris, nem me lembro a hora, e eis que nos surge aquela
figura bizarro-cômica, um misto de guerreiro gaulês,
“headbanger” e “Hell’s Angels”:
Phillipe (um dos caras da Underclass, nosso selo francês).
Mal sabíamos que ele se tornaria nosso melhor amigo europeu,
o motorista da tour francesa e, talvez, o cara mais “figura”
da Europa (certamente é o cara mais Metal do mundo... A
casa dele parece a própria “sede” do Wacken
- copo, tapete, toalha, pôster... tudo!). O jantar foi com
a galera da Underclass e, inicialmente, rolou uma certa dificuldade
de comunicação, pois eles não são
muito fluentes no inglês.
Nos dividimos em 2 grupos: Bruno, Berne e Giovani pra um lado,
Rodrigo, Edgard e Tassio pra outro. Teríamos 5 dias pra
conhecer Paris, entre seções de autógrafos,
entrevistas, programas de rádio (e chamam isso de “day-off”!).
Na primeira noite em que saímos, a primeira visão
muito louca foi um corvo num poste, grasnando, parecia o do Poe
“Nunca mais!”. Visitamos o que foi possível,
pois afinal não estávamos em férias e tínhamos
compromissos profissionais...
De Paris para a encantadora região
da Bretanha
Na quarta-feira, 13 de julho, embarcamos com
Phillipe “Crazy-Driver” e Jérôme, o “tour
manager”, pra rasgar pra Bretanha, a região celta
da França que eu mais ansiava em conhecer...
As estradas são ótimas, mas cheias de pedágio
e as paisagens são lindas (a Bretanha parece um sonho)...
E então chegamos a Saint Brieuc pra fazer um “show
case” e nem supúnhamos o que poderia ser isso mas
não passava de uma sessão de autógrafos numa
das lojas de CDs da rede “LP Records”. Fizemos um
set só com instrumentos acústicos. Não tinha
batera, nem teclado... o Rodrigo e Edgard tocaram só meia
lua, e o tal do “show case” era em frente à
loja.. Muito louco!!! Nos sentimos como aqueles peruanos que tocam
música inca aqui no Brasil; mas foi algo diferente. Em
Languidic é que rolaria um show de verdade, acústico,
no mesmo dia. Antes do show foi difícil engolir uma comida
típica da região... o sabor não era ruim,
mas o cheiro...
Era um feriado bretão e rolava uma festa tradicional, ao
ar livre. Primeiro tocou uma banda local, Shadyon, muito legal
por sinal. O som estava perfeito (desta vez tudo plugado com teclado
e bateria), e fizemos um grande show. Foi nossa primeira manifestação
real em terras celtas. Todos gostaram, e o curioso era que a platéia,
por ser uma festa tradicional, estava cheia de velhinhos, crianças
uniformizadas (que dançaram em todas as nossas músicas)
e claro a galera Rock e Metal. Depois do show a criançada
toda juntou na gente pra pedir autógrafo. Foi muito bom
e, pra finalizar, rolou uma banda de música tradicional
bretã, tocando só peças tradicionais, com
aquelas danças em espirais, rodas imensas, e a gente lá
no meio... Depois tocaram umas coisas Pop, até que mandaram
Festa no Apê... Sério!!! Fomos embora pro hotel...
Que hotel “da hora”! No meio do mato, parecia a plantação
da ‘Colheita Maldita’... E a gente lá, esperando
algum espírito ou duende aparecer. Até que tivemos
que pegar a estrada de novo.
Já no dia 14 estávamos em Brest, uma cidade litorânea
da Bretanha. Este também seria um show acústico
num pub irlandês, junto com o Shadyon. Aí foi aquela
coisa toda de sempre, comidas diferentes (a peãozada de
Varginha só dando pala pra comer), gole à vontade
e tudo mais. O problema é que nesse pub tinha um controlador
de volume; e quando a gente empolgava (o Bezerrão descia
a mão na batera) o controlador sumia com o som... Que caretice!
Queríamos fincar pedra naquele trem, mas foi legal!! Vendemos
muitos CDs, camisetas e brincos de pena. O mais louco, é
que na Bretanha, por ser uma região céltica, a galera
pirava nos sons, e todos falavam que soávamos mais verdadeiros
que muitos grupos locais... Aquilo era um ópio pra nós!!!
No dia seguinte, 15/07, seria o primeiro show elétrico,
mas antes teríamos outro “fantástico”
show case, em Hennebont, uma vila medieval, mas pulemos... Este
show elétrico foi cruel (com o Shadyon também).
Era em Le Sourn na estrada perto de Pontivy, ainda na Bretanha.
Quem já leu “On the Road” (Jack Kerouac) e
assistiu aos filmes de David Lynch, talvez imagine o que era esse
bar... Muito legal!!!! Descemos a laje, e o povo pirou...
O promotor na Bretanha, era um cara muito simples, da roça
mesmo, muito humilde, quase não falava nada, mas gente
fina. Só, que tinha uma cara de doido (doido mesmo), e
uma expressão que a gente pirava... Nós o chamávamos
de “o loco do machado”. E na última data da
Bretanha, dormimos na casa dele, que é no meio do mato,
com uma igreja do século XIV na horta (acho que é
por isso que ele é assim)... Demais!!!
De Tours até a volta a Paris
Rodrigo Abreu: Chegamos à
cidade de Tours e fomos direto para o auditório da faculdade
(Faculte dês Sciences Parc Grandmont), onde seria o show.
Durante a montagem dos equipamentos eu e o Tassio estávamos
ao lado do auditório e ouvimos uma voz feminina, falando
em português. Aquilo era animador depois de tanto francês
e inglês. Era a nossa intérprete, Karen, que mora
lá há três anos.
O show de Tours foi diferente dos demais, eram 2 em 1: às
20:30h começava o acústico, às 22:00h seria
uma entrevista com a platéia, onde entrava o trabalho da
Karen, e às 22:30h o show elétrico.
Aguardávamos o horário de início ao lado
do estacionamento dos funcionários e, para se distrair,
o Giovani e o Berne tiveram uma daquelas brilhantes idéias
“jozelitas” de pular a porteira do estacionamento
sem usar as mãos... Não deu outra, o Giovani errou
o salto, tentou se segurar e só escutamos o grito: “filho
da p....” Ele tinha acabado de torcer um dedo da mão,
isso 15 minutos antes de começarmos a tocar. Mesmo assim
ele foi pro sacrifício.
Começamos a tocar o acústico, o público estava
meio acanhado nas primeiras músicas, mas o Bruno fez a
platéia se desinibir. Eu olhava para a cara do Giovani
e ria porque, mesmo nas partes calmas do show, ele tocava fazendo
muita careta, o público com certeza estava achando que
ele estava “dibuiando” mas a verdade é que
ele sentia muita dor. Terminamos essa parte acústica com
a platéia bem agitada, isso era animador. Logo na seqüência
a simpática Karen subiu ao palco para começar a
entrevista. Surgiram várias perguntas, mas um momento marcante
foi quando alguém perguntou se conhecíamos algum
compositor francês. Então o Edgard mostrou sua grande
cultura musical e demonstrou que não só conhecia
vários, como tinha predileção pelos trabalhos
de alguns. Citou Hector Berlioz, Camile Saint-Saens, Claude Debussy
e Erik Satie. E até tocou um trecho da obra de Satie, uma
de suas Gnosiennes, a de número 1, que descreve os caminhos
pelo labirinto do minotauro, na perdida ilha de Creta. Isso fez
com que o público pirasse... Acabando a entrevista fomos
para o camarim nos prepararmos para o set elétrico. E o
Giovani continuava reclamando de dor... Como o público
já tava aquecido ficou tudo mais fácil, eles vibraram
muito da primeira até a última música. Recebemos
aplausos eufóricos ao término das músicas.
E no final do show demos muitos autógrafos... Esse reconhecimento
era a maior recompensa para a banda, saímos de Tours com
a consciência tranqüila de missão cumprida,
e muito bem cumprida. Lá pelas 00:30h caímos na
estrada, onde enfrentaríamos a viagem mais longa e cansativa
da França, cerca de 10 horas de viagem até Marselha.
Chegamos por volta das 11:00h da manhã, totalmente destruídos,
direto pro hotel, onde descansamos até 5:00h da tarde.
Em Marselha tivemos uma ótima recepção, como
em toda a turnê pela França e, pra variar, mais baguete
e cerveja quente no jantar. Depois de conhecermos as bandas que
iriam tocar com a gente, montamos nossas coisas e voltamos pro
hotel para dormir mais um pouco. O Tassio e o Jérôme
ficaram na casa de show para montar o merchandise. Já chegamos
dormindo no hotel, de tanto “prego”, iríamos
tocar por volta das 10:30h da noite, e não programamos
o despertador. O motorista Phill Crazy-Driver também estava
“pregado” dormiu e não conseguiu acordar. Eu
e o Bruno acordamos em cima da hora, mas não sabíamos
qual era o quarto do motorista e não tínhamos como
localizá-lo. O Giovani conseguiu ajuda, apesar da dificuldade
de se fazer entender em português, e usou o celular de um
hóspede para chamar o Phill. Três minutos depois
desce o Crazy-Driver com a maior cara de sono e pedindo desculpas...
Mas, pra sair do hotel com a van o portão era acionado
com senha, que o Crazy-Driver não tinha... Mais um tempo
perdido pra resolver a parada e chegamos ao local do show praticamente
na hora de tocar. O Tassio e o Jérôme estavam apavorados
com nossa demora...
Começamos a tocar e a galera agitou do começo até
o final. Dava para notar no público várias camisas
da banda, e muita gente que já sabia cantar nossas músicas,
isso pra nós era “bão demais”, depois
de tantos imprevistos encerramos o show com sucesso absoluto.
O mais animador era saber que teríamos dois dias para descansar.
Naquela noite fomos para os bares de Marselha pra comemorar. Lembro-me
de que estávamos num bar de frente para o mar Mediterrâneo
e que fui ao telefone ligar para o Brasil. Foi quando vi o Giovani
correndo de uma mulher estranha (tipo “micróbia”).
O que estava acontecendo era que a mulher arrumou uma confusão,
por causa da nossa cerveja, que quase virou escândalo. Filmamos
essa parte e colocamos o nome de “A Perseguição”,
depois de muito custo ela foi embora.
No dia seguinte prosseguimos viagem rumo a Grenoble, essa foi
a parte mais bonita da viagem, quando passamos pelos alpes franceses.
Chegando em Grenoble encontramos a Elody (a cantora que fez participações
nos shows de Grenoble e Paris com a música Abracadabra).
Depois fomos direto para a FNAC, onde tocamos um set acústico
por uns 40 minutos, a platéia era na maioria de Rock e
mesmo os curiosos curtiram bastante.
A banda da Elody abriu o show de Grenoble naquela noite, e logo
em seguida subimos ao palco, e deu pra perceber que o público
que estava à tarde na FNAC também compareceu à
noite, até mesmo os curiosos que pareciam não conhecer
Rock. Mais uma vez o show foi ótimo. Depois do show nos
serviram um magnífico jantar, macarrão à
bolonhesa. Pelo menos dessa vez a baguete era apenas um acompanhamento.
Após o jantar fomos para a casa da Elody onde comemoramos
o show da noite.
Na manhã seguinte, 21/07, seguimos viagens para Reims,
e fomos direto pro lugar do show. Seria um dia cansativo porque
iríamos tocar e viajar logo em seguida para Paris. Quem
não estava muito bem nesse dia era o Berne, ele estava
meio que passando mal, e ficou o show inteiro acanhado, diferente
do seu dia a dia normal, pois ele é sempre engraçado...
Mas tudo bem, ele se recuperou.
Na sexta-feira, dia 22, logo depois de acordar fomos para a casa
de show La Scène Bastille. Lá havia muita menina
de 15 - 16 anos todas produzidas. Ficamos sem entender se já
era para o show da noite. Entramos na casa e descobrimos que aquele
alvoroço era por causa da gravação de um
clip de uma banda Pop da França. Mas quando avisaram isso
o Berne já tinha entrado na área da gravação,
e eles continuaram a filmar até notarem um cabeludo de
preto, no meio de todas aquelas meninas produzidas. Pararam a
gravação e convidaram o Berne a se retirar. Isso
foi motivo pra muita risada. Nesse dia a equipe da gravadora Underclass
estava toda conosco nos camarins. Demos várias entrevistas
para a imprensa local. O show estava “sold out”, e
já com a casa lotada a primeira banda começou a
tocar. O som e a iluminação eram excelentes. Depois,
a segunda banda entrou no palco, e em nossa homenagem eles tocaram
com as camisas da seleção brasileira, muito massa!
Em seguida subimos ao palco com o público todo incendiado
desde o começo, parecia até os shows no Brasil.
A maioria já sabia cantar nossas músicas, mas, pra
“zuar” o barraco logo na terceira música a
guitarra do Bruno estraga a tarraxa, e não tínhamos
instrumentos reservas. Aquilo foi dando um estresse, até
o guitarrista da banda anterior emprestar sua guitarra. Continuamos
o show até o fim sem mais nenhum imprevisto. Tivemos duas
participações especiais nesta noite, uma foi a Elody
e a outra, como sempre, o Phill Crazy-Driver. No final ficamos
contentes e tristes ao mesmo tempo. Felizes por ter encerrado
mais um show com sucesso absoluto, e tristes por terem acabado
nossos shows na França. Saímos com o Lionel da Underclass
e toda a equipe para um pub comemorar a tour da França.”
Da França para a Alemanha
- Paris, Frankfurt, Aschaffenburg até Hamburgo
Giovani Gomes: Depois do show
no La Scène Bastille, tivemos a semana realmente livre
para conhecer pontos turísticos de Paris, inclusive o cemitério
Pierre Lachese, onde Jim Morrison, Oscar Wilde, Chopin, Balkzac,
Alan Kardek e outras personalidades estão sepultadas, e
a região do Moulin Rouge (zona do baixo meretrício
parisiense). Tentamos ver tudo que desse tempo, às vezes
cada um saia para um lado diferente. Foram dias que curtimos com
muito vinho e cerveja da melhor qualidade - só esses dois
últimos itens já dariam uma “má téria”
à parte - e baguete pra variar. À noite aproveitávamos
para conhecer alguns pubs, a essa altura o inglês já
estava fluindo legal, principalmente depois de umas “brejas”.
Via-se gente de todo lugar do mundo, muita mulher bonita, uns
visuais muito loucos, enfim, muita informação e
intercâmbio cultural para a cabeça. Não só
a platéia em Paris, mas os parisienses em geral pelo menos
os que conhecemos, não eram tão frios como algumas
pessoas haviam falado. Todos foram muito educados e receptivos
conosco.
Na quinta-feira partiríamos para Aschaffenburg, na Alemanha,
às 17:00h, mas não foi o que rolou. Perdemos o trem
por causa do tráfego. O motorista da van, o Crazy-Driver,
que parecia o Asterix, saiu no gás, mas mesmo assim chegamos
uns 5 minutos atrasados. Tínhamos muita bagagem, as mochilas
eram enormes, e ainda com ferragens de bateria, barracas, etc.
A partir dali éramos somente nós cinco e o Tassio
na “camelagem”. Carregar essa tranqueira de um lado
pro outro foi embassado. Esperamos o próximo trem, que
sairia às 22:00h, o clima na estação estava
tenso, com muitos policiais fortemente armados, correndo de um
lado pro outro. Então, o Bruno e o Berne pegaram os violões
e ficaram fazendo um “blues” e o tempo passou mais
rápido. Chegamos a Frankfurt de trem na manhã de
sexta-feira. Catamos a “tranqueirada” e encontramos
o Hansi, o cara que nos deu suporte na Alemanha. Fomos pra casa
do Hansi em Aschaffenburg e, como a esposa dele é brasileira,
tinha arroz e feijão (que maravilha!!). Eu nem dormi, fui
direto pra cozinha preparar um “rango” à mineira.
Em questão de comida, mulher, futebol, clima e público
Metal o Brasil é o melhor lugar do mundo, mas a cerveja
deles não tem comparação, muito encorpada
e não dá ressaca. À tarde visitamos um castelo
“antigaço” e, em seguida, fomos para o local
do show, a Colos-Saal. Casa cheia, som paulada, fizemos um show
de uma hora e meia, o público agitou e até arriscou
cantar umas partes, muita gente já conhecia o som, pra
nossa surpresa. Depois tocou uma banda de Metal bem conhecida
por aqueles lados, Minotauro, bem louca, rola uns teatros, luta
de espadas, muitas máscaras e tal.
O “trash” mesmo foi o que aconteceu depois. Tínhamos
um show em Hamburgo no dia seguinte, só que para chegarmos
até lá precisaríamos fazer cinco mudanças
de trem, com intervalos entre cinco, dois minutos e até
vinte segundos de um pro outro. Isso o Hansi não tinha
nos falado... Seria impossível fazer uma mudança
de um trem para o outro em 20 segundos, ainda mais com aquela
“montoeira” de bagagem. Então ele e a esposa,
solidários com nossa situação, resolveram
ir com a gente para o Metal Bash em Hamburgo. Foi a parte mais
difícil da viagem, já não dormíamos
há dois dias e não podíamos dormir, pois
perderíamos o trem. Não dava nem para revezar na
soneca, porque nem sempre caíamos (literalmente) nos mesmos
vagões e o trem não esperava um segundo sequer.
Esta situação e o cansaço causaram uns estresses
na galera, mas “belê”, tudo se resolveu. Na
última mudança já estávamos profissionais,
nem a equipe do Schumacher seria tão rápida. Chegamos
como zumbis. A van do festival nos levou ao local do show e já
eram duas da tarde. Um espaço aberto, som violento, estava
tocando uma banda de meninas do Japão e éramos então
os únicos “gringos” por lá. Do resto
eram só bandas alemãs. Imploramos por uma hora de
sono, mas não rolou. Fomos direto para o palco, as mãos
tremiam devido a tanto cansaço, mal parávamos em
pé após mais de dez horas de viagem. Mas depois
da primeira música já era. O público alemão
delirou, dançaram em rodas e bateram cabeça. Na
seqüência fomos para a banca de autógrafos,
conhecemos uma galera enorme, e a essa altura ninguém mais
pensava em dormir. Havia ainda muitas bandas para se apresentar.
Montamos nossas barracas e fomos pro abraço. Valeu o “trampo”!
“The delirium was just beginning”!
Hamburgo - um lugar sagrado para o Rock - Wacken a
Meca do Metal
Rodrigo Berne: No começo
da tarde do domingo, dia 31, saímos do acampamento do Metal
Bash Festival e nos instalamos no hotel Seemanns Mission, em Hamburgo,
onde ficamos à espera das equipes da Roadie Crew e do Programa
Stay Heavy, que chegariam na Alemanha no dia 2 de agosto para
ir ao Wacken. O Seemanns Mission não poderia ficar num
lugar melhor: está na região do porto de Hamburgo,
próximo aos pubs e clubes por onde passaram bandas das
mais famosas do mundo e estávamos hospedados a 50 metros
do “Headbanger’s Ballroom”, um dos principais
bares de Metal da Alemanha. Mas no hotel também havia um
ótimo bar e nos sentíamos em casa.
Passamos uns dias recuperando as energias, jogando ping-pong ou
fazendo jams no bar do hotel com algumas figuras pitorescas que
lá apareciam.
O tempo estava horrível, só chovia, nem parecia
verão. Esperávamos que o pessoal chegasse ainda
de dia, mas quando já achávamos que tinham nos esquecido
em Hamburgo eis que chega todo mundo, por volta das 22:00h. O
Vinicius, a Cintia e o Patrick, todos com câmeras na mão,
estavam filmando tudo, e o pessoal da Roadie Crew fotografando...
Era flash pra todo lado... Finalmente todo o grupo estava junto.
Mudamos então para hotel onde toda a comitiva da Roadie
Crew estava hospedada, o Meridién Stillhorn, que fica um
pouco afastado da área urbana de Hamburgo, e é um
sossego completo.
O pessoal recém chegado do Brasil estava muito curioso
sobre a nossa turnê, e passamos dois dias lembrando e contando
as aventuras vividas nas semanas anteriores. Saímos também
com o grupo para visitar o Star Club e o Kaiserkeller, lugares
famosos por fazer parte da história dos Beatles.
No dia 4 pela manhã partimos para a cidadezinha chamada
Wacken (2500 habitantes), 50 km ao norte de Hamburgo, onde viveríamos
uma experiência que vai ficar marcada na carreira do Tuatha
de Danann. Estávamos lá para tocar no Wacken Open
Air.
Logo após recebermos as credenciais fomos para a área
do festival e foi grande a emoção de ver os palcos,
os 4 palcos, foi demais... A estrutura do festival é a
prova de que, sem dúvida, a Alemanha domina o Heavy Metal.
Nos instalamos no acampamento da área VIP, onde ficam artistas,
imprensa e convidados especiais. Montamos as barracas e fizemos
a primeira visita ao backstage, quando reencontramos nossa “crew”
da parte francesa da turnê: o Jérôme, o Phill
Crazy-Driver, e o Gilles.
A partir daí, foram três dias convivendo com a nata
do Metal, e tomando uma cerveja que era ótima... Além
disso até os copos lá são valorizados, se
você não guardar como souvenir, pode trocar por mais
cerveja, como sempre fazia o Giovani... Na noite de sexta-feira
nos preservamos e evitamos exageros na festa permanente que é
o backstage do Wacken.
No sábado, dia 6, ao meio dia estávamos prontos
para o show, tranqüilos, realmente sem preocupações.
Todos perguntavam “você não está nervoso?”,
eu respondia, “faço isso há uma década,
o que você acha?”. Quando subimos ao palco para tocar
eu não acreditava no que via, era muita gente, muita gente
mesmo... Isso foi emocionante e fizemos meia hora de uns dos melhores
shows do Tuatha... parecia o nosso público do Brasil, eles
cantavam, pulavam, faziam roda. Após o show ninguém
conseguia tirar o sorriso do rosto, foi uma benção...”
Saldo final da turnê
Edgard Britto: Estar na França
e Alemanha para a primeira tour internacional do Tuatha de Danann
seria um grande momento na carreira da banda e a chance de conhecer
de perto um pouco da riqueza cultural e histórica da Europa.
Logo em nossa chegada na França, Paris nos deslumbrava:
era a cidade que confirmaria aquilo que sempre estudei nos livros
- Paris, A Cidade dos Artistas. Pude sentir no ar a fragrância
de toda uma história de expressão cultural e artística,
além das batalhas e revoluções que ali transformaram
o mundo.
Mas Paris era só o começo da nossa jornada. Um grande
diário poderia ser escrito sobre nossos shows e as situações
que encontramos em cada cidade, tocando para um público
sempre receptivo e muito curioso. Música Celta do Brasil.
Isto parecia muito interessante e, ao mesmo tempo, estranho para
aqueles que nos viam pela primeira vez.
A magia da França ia de encontro com a nossa proposta musical.
E resultava em “pinceladas precisas e encantadas”
de sons que contagiavam as pessoas que compareciam às nossas
apresentações. Tanto as crianças e adultos,
como até os idosos.
A paisagem de cada lugar, os castelos que nos impressionavam pelo
caminho, tudo era combustível para que os próximos
shows se seguissem mais preciosos e furiosos. Saindo de Paris,
passando pela Bretanha e pelo sul da França, o público
sempre se revelava atento, dançando e batendo palmas com
nossa música. A banda estava a mil, muito entrosada e com
uma adrenalina impressionante.
Trocamos experiências com várias bandas. As comidas
típicas também nos marcaram muito. Às vezes
aprovávamos o cardápio local, mas em outras não
dava para engolir... Enfim, da comida brasileira talvez tenha
sido a primeira grande saudade que sentimos... Só nós
sabemos o que foi isso!
No aspecto cultural éramos saciados com facilidade. Num
dos primeiros dias da turnê estávamos em uma cidade
linda chamada Aix-en-Provence e caminhávamos em uma das
ruas centrais, quando notei bem na minha frente a casa do grande
pintor Paul Cezanne, do movimento impressionista do início
do séc. XX. Em outra rua, a referência era Saint-Saens,
uma homenagem a um dos maiores compositores franceses do final
do romantismo...
Sentíamos que estávamos fazendo parte daquele mundo
de Arte de verdade... Estávamos diante de provas materiais
da existência daqueles artistas e idealistas que revolucionaram
nossa história. Era como se estivéssemos revivendo
parte da história e, o mais impressionante, levando a nossa
música para aquele ambiente.
Gostaríamos que cada segundo ficasse registrado, mas certamente
ficará na nossa memória, será tudo inesquecível!
Em Reims encontramos a monumental Catedral Gótica Flamejante.
A majestosidade de sua construção nos deixou estupefatos.
Ficamos pasmos diante daquela exuberante arquitetura medieval.
Impressionava saber que na Primeira Guerra Mundial aquela igreja
quase foi destruída por completo, mas foi restaurada nos
mínimos detalhes. Era como se o tempo jamais houvesse passado
para aquela igreja.
Em Paris tivemos a oportunidade de visitar diversos lugares, mas
o que mais me impressionou foi a Catedral de Notre-Dame, onde
pude assistir a um estupendo concerto de órgão...
Já na Alemanha, com a passagem rápida por Aschaffenburg,
mal tivemos tempo de prestar atenção no que estava
à nossa volta, só pudemos ter contato com a cultura
alemã quando chegamos a Hamburgo onde pudemos ouvir música
típica alemã e visitar um aconchegante pub irlandês,
onde quase piramos nos “wistles”, violinos, banjo
e percussão. Descobrimos também uma loja de instrumentos
típicos antigos. O que nos chamou a atenção
também em Hamburgo foi ouvir no metrô a soberana
música dos mestres alemães Bach e Beethoven, ressoando
em todos os ambientes das estações e até
nos trens. Tudo natural, perfeito...
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